A Era Sócretina

Inimigo Público 24 de Fevereiro de 2011

Por Martim Pizarro

O senhor Santos nosso Ministro das Finanças dizia há uns tempos que, como diria Churchill, nos encontramos numa situação que “exige que façamos o necessário».

O senhor Santos substituiu o nome próprio Churchill por um nome inventado que, transladado para o papel se situa algures no plano gramatical como “Searchill”: uma mistura das palavras “search” e “chill”. Que este nome atípico sugira uma busca da procura pela calma e pela estabilidade é razoável e compreensível, e, devo ainda afirmar que não é despreocupante a sugestão de retirarmos como ilação ainda, a palavra “research”, se fizermos a devida pesquisa mental interior de 0.5 segundos que ocorre à maioria dos leitores. Não querendo eu como autor deste texto ser demasiado maçudo, cuido que não será estranho o facto de que esta expressão possa certamente representar uma nova palavra composta por aglutinação, enunciadora de um qualquer insulto ou elogio à pessoa de Winston Churchill. O senhor Santos presenteia-nos com o seu brilhante inglês, situação aliás muito habitual no Concelho de Ministros deste governo mas, se a virmos com clareza, diremos que se trata de um snobismo intelectual sendo alegadamente chique a deficiente pronúncia de palavras estrangeiras. Não quero ferir ninguém porque há gente boa e gente má em todos os sítios, certo é, que andamos todos a pagar os luxos de um Estado mentiroso e corrupto, composto por inúmeros mamíferos de luxo alimentados com o combustível fiscal dos contribuintes. Todos os leitores, independentemente do credo ideológico, se não estiverem em situação de instabilidade mental limítrofe o podem comprovar, os mais ricos com a insatisfação dos mais pobres de que em última análise são dependentes, os últimos com a disparidade relativamente aos primeiros. Não vou lançar dados estatísticos disponíveis à vista de todos nos meios de comunicação ou nos institutos acreditados para o efeito porque resultaria num texto estéril igual a tantos outros que foram escritos no passado, escritos contestatários em outros governos, outros fados, outras eras. Na era Sócratiniana, Sócrateira ou Sócretina, à qual me dirijo com esta última dirigindo-me portanto a ela dentro dela, reparo numa enorme falta de carácter do povo Português que já se revoltou por muito menos, que já atirou tomates a muitas maçãs podres no passado, no tempo dos Reis, em outros tempos de conturbação, matou-se o Sidónio, fez-se o que não se faz hoje por muito menos do que hoje é feito. Entendo os trabalhadores nas suas manifestações porque fui apanhado no meio de uma delas, onde vi muita gente com fome que não lá estava para reclamar mais um computador para os filhos, os miseráveis salários dos agentes policiais que mal têm para viver condignamente e abrem a porta ao senhor Santos, ao senhor Sousa, ao senhor Paços Coelho, ao senhor Portas, ao senhor Jerónimo, ao Senhor Louçã, ao Senhor besta quadrada ou ao senhor menir da calçada. Uma pedreira é esta em que vivemos, em que, apesar de muit´ilustres serem os nossos amigos autarcas, muitos deles cultivam viveiros de aldrabices, não são condenados por elas e vêm à televisão passear as consciências alegadamente limpas e clamar o delicioso voto do incauto para mais quatro anos de prolongada sobremesa. Uma pedreira onde governa o Menir e a pedra da calçada, o seixo da montanha e o calhau com cara de pau. Eu caio tão facilmente como os outros, o que peço é a admissão dos erros neste Estado onde ninguém admite nem se responsabiliza, vigora a ética da vergonha – cultura da vergonha e não a ética da culpa – cultura da culpa. “Se ninguém viu, então não tive culpa.” É assim que se faz política em Portugal. Não há interiorização da culpa, não há remorsos, só orgulho. O povo já não é soberano coisa nenhuma nem nunca o foi e será agora soberano o credor internacional – puro feudalismo. Não queriam ditadores? Pois sempre os tiveram e agora serão estrangeiros. Prometeram desde sempre direitos que não podem e dificilmente poderão cumprir no futuro, acenando com a bandeira da igualdade às populações iletradas que prontamente acreditam e perseguem a ideia ano após ano votando na mesma palhaçada moral. Claro que, numa sociedade onde o conjunto de valores que é a moral, está errado, a ética nunca deixará de ser deficiente. Ninguém distingue o bem do mal com base em valores morais que à partida encaminham o ser-humano para becos sem saída. Como poderemos chamar estes senhores? De pedras ou de pedreiros? Quem observa uma pedreira de muito longe já não faz a distinção. Como aceitar que um médico ganhe uma miséria absoluta, outros funcionários públicos igualmente, que haja tantos deputados na assembleia, que ganhem tanto dinheiro, que até há pouco tempo observássemos o canal do parlamento e contássemos os dias pelas mãos em que os senhores lá estavam sentados, que sejam sempre os mesmos cozinheiros pedreiros os representantes dos portugueses, que desertores se candidatem à presidência da república, que o Estado enquanto credor demande as dívidas dos contribuintes em prazos rigorosíssimos e depois demore uma aberração de tempo a financiar os projectos dos particulares, e, onde está o dinheiro dos quadros – comunitários? Onde estavam os 3.8 milhões de euros para se desbloquearem as promoções na PSP antes da ameaça da greve que por sinal apareceram de um dia para o outro? Não há dinheiro para salários nem para os projectos, nem para ajudar as empresas mas há dinheiro para investimentos públicos mastodônticos calculado o seu pagamento com base na contribuição das gerações futuras? E o facto de termos um Primeiro-Ministro que é um mentiroso compulsivo, um mitómano e um bobo da corte parlamentar? E ainda há quem bata palmas e ainda há quem tenha pena! E o líder da oposição que veio da JSD e que tem a escola toda como já se viu, ao prometer uma oposição firme não aprovando há uns meses o orçamento de estado mas que é o coelho da Páscoa do senhor Sousa? E os agricultores, que têm atrasos monstruosos nas suas folhas de pagamento porque o senhor Serrano e o senhor Sousa não libertam as verbas prometidas e devidas, deixando-os depois entre a espada e a parede, entre os credores produtores/agricultores/vendedores e o Estado devedor? Essas verbas são usadas na importação de produtos que não produzimos para não falar nas empresas públicas que só mamam, não produzem. Que espécie de canteiro à beira mar plantado é este onde se perdoam milhões numa falcatrua que noutros países seria punida, desincentivando outros à mesma prática, neste canteiro, onde grandes economistas e tecnocratas são preteridos face a indivíduos carreiristas de política que compraram há muito o seu lugar na empresa B, acabados de sair dessas escolas de corrupção que são as juventudes partidárias, viveiros de musgos e líquenes que bem faziam em existir em realidades imaginárias, numa utopia catastrófica ou num cenário de ficção pós-apocalíptica? Quem são estes senhores pedreiros que me querem impor uma vida de servicência sucumbida ao arrivismo ultra relativista sem escrúpulos da Maçonaria, transformar o meu país na novela das oito e fazer-me acreditar que estou melhor no estrangeiro, que não é país para mim nem para o leitor nem para ninguém que não faça parte da pedreira? Contem comigo para ser extremamente incómodo.

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